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Like A Man

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Um passeio Triumphal

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Começo com uma nota prévia: por muito que as mulheres nos acusem do contrário, nós – homens – sabemos que somos bastante organizados. Para o que nos convém, naturalmente, que uma pessoa tem de guardar energias para aquilo que realmente interessa. E os passeios de moto interessam, e muito!


Daí que seja uma questão recorrente, esta de querermos juntar uns quantos amigos e partir à aventura, fazendo quilómetros sem (ou com) destino. Recorrente porque temos sempre aquela ideia idílica de o fazer de forma nada menos do que perfeita! É preciso estudar o itinerário, os sítios onde vamos dormir, onde deixamos as motos em segurança, etc. Resultado: acabamos por não ir.

 

Ora, este relato serve para provar exactamente o contrário. Haja disponibilidade e vontade de fazer quilómetros, qualquer decisão tomada à última da hora serve. E, neste caso, dois dias serviram para “matar o bichinho”.

 

Desafiado à última hora pelo meu amigo Filipe (não o Gil, aqui do LiAM), aceitei a proposta de irmos conhecer as Aldeias do Xisto que, para quem não sabe, ficam a pouco mais de 200 quilómetros de Lisboa, em plena serra da Lousã.

 

A desculpa era esticar “as pernas” da sua Triumph Street Twin, comprada há uns meses, mas que ainda não tinha feito muita estrada aberta. Daí a pensarmos que faria sentido tornarmos isto num passeio Triumphal foi um instante. Para isso contámos com a simpatia da Triumph Lisboa que nos emprestou a segunda Triumph, neste caso a Triumph Street Scrambler – uma moto que há muito me apaixona, sobretudo neste verde mate que me veio parar às mãos.

 

Já bem montados, os preparativos foram “à homem”. Umas breves mensagens trocadas de véspera marcaram encontro no café – literalmente – da esquina para as 8h30. Aí, com dois expressos à frente, decidimos o itinerário. Sem dramas.

 

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O itinerário

 

Uma vez que seguíamos para Norte, não tínhamos muita escolha. Começámos pela 2ª circular em direcção à A1, para sair mesmo antes das portagens.

 

Quem já conduziu uma moto naked sabe que a condução em auto-estrada não é propriamente a sensação que se procura quando no sentamos aos comandos de uma moto destas. Não porque as motos fiquem aquém em termos de comportamento, nada disso. Simplesmente não foi para isso que foram desenhadas. A sensação de apanhar com o vento na cara é boa, sim senhor, até aos 100/110 km/h. A partir daí, e ao fim de uns quantos quilómetros, torna-se cansativo.  

 

Sem pressas, optámos então por estradas nacionais e ICs que nos levaram até à Lousã. E foi um verdadeiro prazer conduzir estas Triumph em estradas onde a pressão de andar depressa é inexistente. Leves, suaves e com uma posição de condução muito confortável, são perfeitas para passear nas calmas. E foi exactamente isso que fizemos, ainda que – aqui e ali – nos tenhamos deixar levar pelo entusiasmo, abusando um pouco mais do motor que parecia pedir sempre mais de toques de punho. E assim o fizemos – sem grandes exageros, diga-se.

 

Foram três horas e pouco de viagem a bom ritmo, sendo que em todo o itinerário a saída de Lisboa terá sido a parte menos simpática, dado o movimento de camiões que optam pela Nacional para evitar as portagens na AE. Mas nada que agilidade e capacidade de resposta das Triumphs não resolvesse.

 

Lousã

 

À chegada à Lousã, já com o relógio a indicar a hora de almoço e o corpo a pedir um mergulho, ficámos indecisos entre refrescar a cabeça ou alimentar o estômago. Mas, nestas coisas, a sorte protege os audazes e a forma como nos fizemos ao acaso acabou por ter os seus frutos. Recordo que isto era um passeio “à homem” (sem nada marcado e apenas com uma ideia mais ou menos precisa de onde queríamos passar). A ideia era andar de moto, com um objectivo: chegar às Aldeias do Xisto. Tudo o resto era um daqueles desenhos com pontos numerados em que vamos juntando os pontos para, aos poucos, revelar o desenho final.

 

E, aqui chegados, os pontos eram placas de sinalização que indicavam “praia fluvial” e “castelo”. Seguimos ambas para terminarmos no sítio perfeito para o que pretendíamos: a Praia Fluvial da Senhora da Piedade era o “desenho” que juntava os pontos. Com as motos paradas junto ao rio, perfeito para um mergulho refrescante, tínhamos o Restaurante O Burgo ali mesmo ao lado. Como extra, a torre do castelo que fica sempre bem nas fotografias da praxe.

 

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Mas a sucessão de acasos não se ficou por aqui. Enquanto almoçávamos, em conversa com o dono do restaurante, recebemos a dica que faltava: de todas as Aldeia do Xisto, a que seria a mais interessante seria a da Cerdeira. Curiosamente, e coisa rara, tinha uma casa vaga para essa noite. Já com a reserva feita, e de volta às motos, partimos rumo ao destino final, não sem antes pararmos nos miradouros da região para mais umas fotos. (Já vos disse que estas Triumph são muito fotogénicas? A região da Lousã então, nem se fala.)

 

Aldeia da Cerdeira

 

Não há como ficar indiferente à beleza das Aldeias do Xisto. Construídas nas encostas da Serra da Lousã, parecem fazer parte da paisagem desde sempre.  

O ambiente, mágico e bucólico, transporta-nos para outro tempo. Tudo parece perfeito neste cenário. Do chão de ardósia ao perfil desalinhado da construção, sem esquecer a vegetação que envolve toda a aldeia.

 

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E, no caso da Cerdeira, é uma magia que se transporta para o conceito que aqui vigora. Aldeia criativa, está no mapa internacional da criação artística. Por aqui fazem-se workshops de formação e retiros ligados à criatividade. A título de exemplo, aquando da nossa estada havia uma formação em olaria, dada por um mestre japonês que, em 2015, veio de propósito construir aqui o forno para finalizar as suas peças.

 

Para jantar escolhemos o Ti Lena, na aldeia vizinha de Talasnal. Como estávamos com vontade de esticar as pernas, depois de consultarmos as nossas anfitriãs na Cerdeira, e depois de nos terem dito que havia um trilho (com sinaléctica própria, portanto) que nos levaria lá, decidimos ir a pé, pelo meio da Serra. Ora bem meus amigos, quanto a isto fica uma dica: se alguma vez ficarem alojados por aqui, não façam isso. Sim, estejam quietos. A menos que haja luz natural tanto na ida como no regresso. Aí sim, recomendo o passeio para limpar os pulmões. Agora neste caso, tratando-se de um jantar, a coisa é mais complicada. Aqui os heróis, tendo iniciado o caminho de ida já por altura do pôr-do-sol, começaram a imaginar o regresso, apenas com as lanternas dos telemóveis a iluminar a busca da sinaléctica que nos levaria de regresso a casa... Provavelmente ainda lá estaríamos.

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Felizmente contámos com a simpatia e disponibilidade do Mário, um dos proprietários do restaurante, que no caminho para casa nos deixou na Cerdeira. Aproveitámos para trocar dois dedos de conversa, onde ficámos a saber que o número de visitantes/turistas ficou, este ano, aquém dos números de outros anos. O que não estará dissociado dos famigerados incêndios que no ano passado andaram pela região. Curioso que estamos sempre tão disponíveis – e ainda bem – para ajudar as populações vítimas destas catástrofes, mas depois esquecemo-nos que a melhor forma de ajudar será sempre manter a economia a funcionar. Fica a nota para reflexão.

 

O regresso - Estrada Atlântica

 

Para o regresso, e não querendo repetir o mesmo caminho, resolvi levar o Filipe a conhecer a Estrada Atlântica. Tinha-a percorrido pela última vez há menos de um ano, também de moto, e recordo essa viagem com um enorme sorriso. Havia, no entanto, um senão a considerar. O incêndio de outubro do ano passado “varreu” aquela zona e, confesso, estava num misto de alegria e apreensão por voltar a fazer aqueles quilómetros.

 

Pelo caminho, e para a despedida da Lousã, ainda passámos no célebre Baloiço do Trevim, para as inevitáveis fotografias. De novo, e porque nos pusemos a jeito, “tropeçámos” em mais uma pessoa muito simpática, que nos “ofereceu” também qualquer coisa. Desta vez foi o muito prestável Nuno, que se encontrava por ali com a família a testar o seu novo drone. Prestável porque acedeu ao nosso pedido para registar o momento da nossa partida, que aqui partilhamos (editado por nós).

 

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Já no asfalto (o caminho para o Baloiço não pode ser chamado de estrada), fomos em direcção à costa para, então, começarmos a descer a Estrada Atlântica. O objectivo era almoçar algures ao longo do caminho.

 

Não foi preciso chegar à EA para perceber a dimensão dos estragos provocados pelo incêndio do ano passado... O que dantes era verde e frondoso é agora escuro e sombrio. Onde havia vida, existe agora destruição e, aqui e ali, tentativas da natureza volta a erguer-se. É inconcebível a forma como não sabemos manter o legado que nos foi deixado e, por outro lado, é incrível a resiliência e a capacidade de regeneração de uma flora que merecia melhor sorte. Menos de um ano depois, já se vê muita vegetação nova a romper por entre as cinzas para dar um ar da sua graça.  E que graça tem esta Estrada Atlântica, ainda que rodeada deste cenário desolador. Se ainda não a percorreram - de carro, moto ou até de bicicleta, já que toda a estrada é acompanhada de uma ciclovia - recomendo vivamente que o façam.

 

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Pelo caminho podem parar para um mergulho ou para comer qualquer coisa, como nós acabámos por fazer. Escolhemos São Pedro de Moel para o fazer, num almoço em cima do mar que serviu para acertar o plano para o que faltava da viagem. Daí para baixo íamos continuar a evitar as auto-estradas, mas não a diversão. As Triumph exigiam isso.

 

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Sempre (quase sempre, vá) dentro dos limites, lá regressámos a Lisboa com a sensação de ter termos feito um belíssimo passeio, muito bem “montados” e com memórias que já ninguém nos tira. É também esse um dos prazeres de andar de mota, coleccionar momentos e histórias para contar. Nada mau para um passeio combinado “em cima do joelho”, não?

 

Fiquem com mais algumas fotos destes dois dias e fica também o nosso agradecimento à Triumph Lisboa pela disponibilidade em emprestar-nos a Street Scrambler que tão bem se portou.

 

Triumph Lisboa

Av. Padre Manuel da Nóbrega 10B, Lisboa

Tlf: 218 292 170

 

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