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Like A Man

Relationship status: *ucked up

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Façam o teste: pesquisem no Google (em imagens) as palavras “Relationship status”. É um sem fim de resultados, a maioria deles com muita graça, quase sempre trocistas de uma realidade sobre a qual optamos pelo clássico “rir para não chorar”.

Outros - muito menos - mais profundos e quase a meio caminho do grau de guru do amor.

Mas vamos que interessa: estes são tempos estranhos para os solteiros. Parecemos viver num limiar de qualquer coisa que não chega a ser coisa nenhuma. Confuso? Pois, é esse o ponto.

Nunca, como agora, tivemos tantas possibilidades ao alcance da mão (literalmente) para conhecer pessoas. Apps e redes sociais em geral juntaram-se aos clássicos de uma vida de encontros fortuitos que os mais afoitos sempre aproveitaram para se dar a conhecer.

Mas nunca, como agora, estivemos tão desligados. A facilidade com que se percorre um “catálogo” digital de potenciais pretendentes parece ter arrefecido a forma como olhamos as relações. Procuramos a alma gémea, o “partner in crime”, a “pessoa que nos faça sair da aplicação” com o attention span de uma criança de 3 anos. Queremos tudo, mas não nos ligamos a nada. Dir-se-ia que nos tornámos exigentes - picuinhas é o termo -, mas o dedo que conduz os swipes parece fazê-lo cada vez mais distraidamente, adormecido por uma espécie de digestão sonolenta, provocada pelo evidente excesso de oferta.

E quando o match chega, tudo tem de ser perfeito. A opening line tem de ser arrebatadora (caso contrário nem nos damos ao trabalho de responder) e a resposta ao questionário-tipo que criámos para identificar o parceiro ideal – apurada ao longo de dezenas de matchs mal resolvidos e porque “não queremos perder tempo com quem não interessa” – tem de ser nada menos do que perfeita. E assim seguimos num carrossel de ilusões e atos falhados, que, no final do dia, nos fazem sentir pior do que quando começámos. Afinal, uma coisa é “falhar” no mundo analógico, em que apenas podíamos conhecer pessoas dentro do círculo de amigos, no trabalho (Deus nos livre!), na ocasional saída à noite ou, com sorte, no corredor dos frescos do supermercado. Outra coisa, completamente diferente, é falharmos com todas estas opções e, por cima, um mundo de soluções digitais criadas para desencalhar o mais teimoso dos Tollans*.

O resultado? Uma geração de fucked ups emocionais, que ameaça deixar de acreditar no amor, quando aquilo em que devemos deixar de acreditar é na possibilidade de terceiros virem resolver tudo o que está errado na nossa própria vida. Dificilmente alguém que não esteja bem consigo próprio será atraente para outrem. Mesmo que as realidades paralelas que criamos no instagram ou o perfil da dating app, sorridente e com uma citação de um escritor famoso, tentem mostrar o contrário.

A boa notícia não é que existe um divã digital onde possamos deitar-nos e resolver as nossas merdas, mas sim que temos a possibilidade de virar isto ao contrário. Esquecer as aplicações e as redes sociais e olhar para a/o menina/o que almoça todos os dias no mesmo restaurante que nós ou que frequenta o mesmo ginásio. Dizer “bom dia” é um começo. Rezar para que não nos considere creepy ou abusado é o passo seguinte. Afinal, com a “evolução” de tudo isto, simplesmente falar com alguém parece ter-se tornado um comportamento, no mínimo, desviante.

Boa sorte!

*Referência datada e que apenas os nascidos antes e durante a década de 70 vão entender.

Nota importante:

Nenhum perfil de Instagram, Tinder, Happn ou Bumble foi maltratado para a realização deste artigo. O mesmo resulta unicamente da capacidade de observação do autor. O “estudo” feito é totalmente empírico e carece de aprovação científica.