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Like A Man

Like A Man

O homem da mesa ao lado

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Estava sentado na mesa de uma tasca, daquelas simpáticas. Esta é quase uma continuação da minha cozinha. Acho que, nos últimos anos, já lá levei quase toda a gente que me é querida.

 

Numa das televisões passava o jogo de futebol Juventus contra Ajax. Baixinho torcia pelos holandeses – a seguir ao meu Benfica é o único clube do qual já fui sócio. Conversa de circunstância, da boa, com a família. Olhar para os putos que crescem todos os dias mais um pouco sem quase nos darmos por isso.

 

Ao meu lado um homem. Na casa dos sessenta. Silencioso. Podia ser meu pai. Afastei o pensamento. Fez-me sentir saudades. E concentrei-me noutras coisas, como a de dar os ralhetes do costume às crianças.

 

Mas passados uns minutos, não deixei de reparar que o homem da mesa ao lado continuava sozinho. Comecei a estranhar pois não bebia nem comia, só olhava para o televisor colocado num canto da sala democraticamente acima da cabeça de todos.

 

O homem, com os talheres e pratos para si e para outra pessoa colocados na mesa, não tugia nem mugia. De um momento para o outro, um homem mais novo, de fato, entra e senta-se no lugar vago, em frente do outro. Cumprimentam-se, falam do trânsito que atrasou o encontro. Eram pai e filho. Ambos, ali ao meu lado a jantar. Uma coisa de homens, forçada pelas circunstâncias da vida ou combinada para a celebrar. Mas isso não me interessou. Interessou-me a conversa deles. De poucas palavras. Tal pai, tal filho.

 

Tentei ouvir o que diziam. O pai a falar mal de Cristiano Ronaldo, o filho a revirar os olhos. Como os filhos fazem aos pais, como os meus me fazem a mim, ou como eu fazia ao meu. Mas o pensamento levou-me para onde não queria. Comecei a pensar que devia ter feito mais vezes aquele tipo de encontros com o meu pai. Que se calhar ele era mais curioso pela minha vida do que eu sempre pensei.

 

Acho que fiz pouco daqueles encontros com o meu pai. Que devia ter feito muitos mais. Que devia ter ido jantar com ele mais vezes, ali ou noutro sítio. A saudade foi grande. Abstraí-me de tudo o resto, tentei concentrar-me no jogo, nos putos, no fato de camisa azul já com nódoas do tipo mais novo ao meu lado. Mas não consegui.

 

Senti aquela tristeza invasora que vai dos pés à cabeça e não nos larga. E mesmo que pode demorar escassos três segundos, mas parecem meia vida. E que nos agarra com uma força que destroça. É assim que acontece. São as saudades más, com lhes chamo. Não as saudades que nos fazem sorrir, que nos fazem relembrar coisas boas. São as que custam e fazem engolir em seco ou gritar até ao recanto mais fundo da nossa alma.

 

Às vezes é assim. Às vezes as saudades não são boas. Às vezes quase que nos destroem, ainda que por momentos. A vida nem sempre é instagramável. Às vezes é simplemente assim, má. Talvez para que possamos dar valor aos momentos bons.