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Like A Man

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Quando o melhor a fazer é o divórcio

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Apesar de ser um tema que atualmente é "quase banal" e que, felizmente, já não tem o estigma social que exista outrora, é sempre um tema difícil. Hoje falamos de divórcio. E nada melhor do que falar com alguém que é especialista em gerir "épocas" de divórcio como a Marta Moncacha. Foi o que fizemos. 


A Marta é especialista na matéria e dá aconselhamento na gestão de conflitos nas relações. A Marta é mãe de quatro. Casada. Mas já passou por um divórcio e sabe do que fala. E não, não é apologista do divórcio. Mas acredita que é um mal necessário quando se está perante um "mau casamento".


Senhores e senhoras, isto é um assunto sério. Para ser à luz de uma tranquilidade que muitas vezes falta no turbilhão de emoções que envolvem estes processos. Vejam o que nos disse a Marta.

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#Quando é que chega o momento do divórcio?
De todas, esta é a pergunta mais difícil! Não há receitas, nem é linear. O divórcio acontece quando a relação conjugal está desgastada de forma irreversível e quando existe, pelo menos, um dos elementos do casal tão insatisfeito com a relação, que toma a decisão da separação ou do divórcio. A chegada do “momento” é variável, porque cada um de nós tem os seus próprios limites e motivações, e cada casamento é único. 


#Como deve ser a "conversa"?
Deve ser o mais serena possível, sem a presença de terceiros, muito menos dos filhos do casal, se os houver. No mundo ideal, o elemento do casal que toma a decisão deverá ter feito algum trabalho de preparação junto do outro, verbalizando a sua insatisfação com a relação, dando sinais. Sabemos que nem sempre é possível esta “preparação”, por muitas razões: por medo do confronto, por insegurança, por alguma imaturidade… mas é certo que quando um dos elementos do casal é apanhado desprevenido, o impacto da separação é maior, a “conversa” pode ser mais difícil, e o período de “recuperação” mais longo e gerador de mais conflitos.


#Quanto tempo devem manter-se na mesma casa depois da decisão do divórcio?
O divórcio é o fechar de um ciclo e para que esse ciclo seja fechado, o casal que se divorcia deve deixar de partilhar casa. Isso ajuda os adultos a fazer “o luto” do projeto de vida conjugal que terminou, e ajuda os filhos a incorporar a nova circunstância de vida. Não nos podemos esquecer que a fase pós-divórcio é muito dura para todos os elementos da família, em que as emoções estão muito à flor da pele. Manter a coabitação pode potenciar conflitos desnecessários e, algumas vezes, de alto risco.


#Uma parte do casal sai sempre mais fragilizada que outra. Como deve ser gerido pela parte mais “forte”?
Presumo que “a parte mais forte” é quem tomou a decisão, certo? De facto, é quem está, supostamente, emocionalmente mais preparado para a transição.
Só há uma maneira de gerir: com profundo respeito pela dor do outro e pela história que viveram juntos. E com alguma tolerância relativamente às palavras ditas fora do lugar e ao descontrolo das emoções na fase logo depois da separação, que fazem parte do processo. E depois há a gestão da “culpa”, que mora com aquele que tomou a decisão durante muito tempo, mas que, ainda assim, não deve ser desculpa para tolerar faltas de respeito, nem abusos de nenhuma espécie.

 

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#O que se deve evitar fazer por quem quer terminar o casamento?
Há muitas coisas que devem ser evitadas, mas a principal a evitar, eu diria, é colocar os filhos no meio dos conflitos. E esta preocupação deve ser levada muito a sério por ambos os progenitores, independentemente de quem tomou a decisão da separação ou divórcio.


#Os filhos são razão para manter um casamento mesmo quando o amor entre o casal já acabou?
Acredito que os filhos são razão para os pais tentarem ser felizes, estando juntos ou separados. Acredito que quando uma relação está muito desgastada, ao ponto de pelo menos um dos elementos do casal estar, de facto, infeliz, os filhos estão invariavelmente infelizes. Não é o facto do casamento dos pais se manter a todo o custo, que torna os filhos felizes; o que torna os filhos felizes é a estabilidade e segurança que os pais lhes transmitem, independentemente da sua situação conjugal. Acho que muitas vezes se confunde “relação parental” com “relação conjugal”. A primeira é para a vida, a segunda é até todos os “protagonistas da história” sentirem que continua a valer a pena! Ainda sobre este assunto, pergunto que referências de afeto e de amor queremos deixar aos nossos filhos, quando persistimos num casamento (ou numa relação) que implica violência (física ou verbal), tristeza, desconexão, conflito permanente, insegurança?...Será essa a referência conjugal que queremos transmitir aos nossos filhos? A minha resposta é não. Quero deixar-lhes a esperança de que é sempre possível recomeçar, que todos temos esses direito e esse dever. Quero que lutem pela relação até conseguirem, mas que se sentirem no limite, sejam capazes de lhe pôr um ponto final.


#As datas importantes (aniversário, vésperas de exames, Natal, férias de verão) são razões suficientes para se adiar o divórcio mais um algum tempo?
Essa é uma das razões porque tantas separações conjugais se adiam, mesmo quando a separação emocional já está consumada. A minha pergunta é: não existirão sempre datas especiais? Na minha opinião, se a decisão está tomada, adiá-la prolonga o sofrimento de todos os envolvidos.

 

#E da parte de quem sai mais fragilizado, o que deve fazer? 
Deve pedir ajuda de pessoas em quem confia e que, à partida, não serão catalisadores de mais conflitos. Deve procurar cuidar-se, alimentando-se bem, hidratando-se, praticando alguma atividade física (nem que seja só caminhar), dormindo tudo o que conseguir. O auto-cuidado é fundamental nesta fase muito dura, assim como todo o apoio possível, desde que de pessoas que não tentem acicatar, mais ainda, o conflito. E em situações mais limite, pode ser necessário recorrer a apoio profissional (psicológico, psicoterapêutico…), sem nenhum preconceito.

 

#Como devem ser as semanas após a separação?
Não há receitas, feliz ou infelizmente. São semanas muito difíceis, em que grande parte das rotinas familiares se alteraram, e em que há muitas “frentes”. Mais uma vez, acho muito importante obter ajuda de amigos “neutros” e manter algumas rotinas que contribuem para tentar trazer alguma “normalidade” e saúde mental: alimentação cuidada, atividade física…
Relativamente aos filhos, é importante que ambos os pais (ou pelo menos aquele que estiver emocionalmente mais organizado), garantam a estabilidade das suas rotinas, sendo que o apoio da família alargada e/ou de amigos de confiança, pode ser uma enorme mais-valia. Uma dica que me parece muito importante, é avisar os Educadores/professores das crianças do que se está a passar na sua vida familiar. São as pessoas que passam mais horas diárias com os nossos filhos, e estarão tanto melhor preparados para lidar com a situação e para ficarem alerta para eventuais sinais de alarme, quanto melhor estiverem na posse da informação.

 

#Em discussões pré-divórcio há muita coisa que é atirada à cara uma da outra. Mesmo que inadvertidamente serão ditas coisas que vão magoar o outro para sempre. Como se deve evitar isso?
O respeito mútuo é a chave, assim como o esforço por trazer à memória tudo aquilo que o outro já foi para nós, independentemente do desfecho menos feliz. Houve uma história de amor, houve um projeto de vida comum, há filhos em comum, eventualmente. Por outro lado, é importante ter-se consciência de que (havendo filhos), a relação parental é eterna, pelo que é preciso preservá-la a bem dos miúdos.
A fase que referes é muito difícil, quer para quem está a tomar a decisão, quer para quem se vê confrontada com ela, pelo que é natural que surjam muitos conflitos e palavras ditas fora do lugar. A mensagem que deixo é que, passado o “tsunami”, é preciso resgatar a relação numa outra perspetiva, já que deixa de ser uma relação conjugal, para ser exclusivamente parental. É preciso reaprender a comunicar com o outro nesta nova relação, tornando-a funcional. O meu trabalho como Facilitadora Parental incide sobre isto mesmo: ajudar a encontrar estratégias para transformar a relação conjugal numa relação parental funcional, a bem dos filhos em comum.

 

#O divórcio é mais fácil para os homens ou para as mulheres?
Não acho que seja uma questão de género. Ainda assim, posso dizer-te por experiência própria, que em pleno século XXI, ainda existe muito preconceito relativamente às mulheres-mães que decidem, separar-se. É por elas que muitas vezes falo sobre o assunto, quer no blogue que escrevo (Dolce Far Niente), quer na minha conta de Instagram.

 

#Quando se arranca para um divórcio é natural que a guarda dos filhos fique com a mulher, ou há mais casos do homem assumir a guarda a 100 por cento?
Faz-me todo o sentido que os filhos tenham igual acesso à mãe e ao pai, assim como à família alargada de ambos os pais, portanto defendo a guarda alternada. Claro que estou a falar de uma família organizada e investida nos filhos. Se estivermos perante um progenitor negligente ou maltratante, o caso muda completamente de figura, naturalmente! Por outro lado, e porque cada caso é um caso, há muitos modelos, muitas ideias criativas, que poderão, inclusivamente, ser discutidas com um Mediador Familiar. O que me parece fundamental, é que os filhos tenham acesso a ambos os pais. Esse é um direito dos filhos e um dever dos pais.

 

#O Natal aproxima-se, como deve ser gerido o primeiro Natal após um divórcio?
Deve ser gerido com pinças. Mais uma vez, só há uma receita: preservar a estabilidade dos miúdos; preservar a paz, preservar-lhes as boas memórias da época. De resto, e havendo flexibilidade de parte a parte, a criatividade é o limite! Para teres uma ideia, o Natal do meu pai com os três netos mais velhos, é no Domingo de Páscoa, e não faz mal!