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Like A Man

Gestos que marcam mais do que notamos

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Há gestos que dizem tudo. Ou quase. Basta um ligeiro trejeito para nos dizer muito sobre a pessoa. Às vezes também a profissão e o estatuto social, se é que essa coisa existe.

Há gestos básicos que me assustam. Sem polémicas. Mas os gestos de velho, ou melhor que estamos a ficar velhos.A forma de aproximar o smartphone da cara, a forma como teclamos nele. Ou ainda como nos sentamos ao computador, lemos um livro ou simplesmente nos sentamos.

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Por vezes, esses gestos dizem-nos mais sobre as pessoas do que uma conversa. Há milhentos livros sobre isso, e de longe tenho conhecimento na matéria para estar a debitar sobre o assunto. Mas preocupa-me duas coisas:

 

  1. Gestos que já não são próprios para a minha idade - posições de puto e que repetimos desde a adolescência, sem termos consciência de tal. 
  2. Gestos do dia a dia que me remetem para os gestos que nos habituamos a ver nos pais e avós.

 

Ninguém disse que chegar à metade dos 40 anos, no meu caso 45, era fácil. Metade da vida já passou espero que a outra metade seja só a partir de agora. E com isso na cabeça penso: como seremos nós em velhos? Nós que vivemos esta revolução digital. Nós que começamos a usar sapatilhas até bem mais tarde. Nós que somos tão diferentes do que eram os nossos avós.


Até lá vou continuar a afastar o telemóvel da cara sempre que conseguir.

 

Por favor, nem mais uma tosta de abacate!

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Não dá mais. Por favor parem, já chega. Não se aguenta mais fotos nas redes sociais de tostas com abacate. Lembram-se como era o mundo antes disso acontecer? Já é difícil!

Acontece que o abacate que agora vemos em tudo o que é influenciador, blogger, foodie e demais habitantes do mundo digital é o novo normal. Repetido à exaustão.

A foto centrada, com o tom certo, geralmente com umas mãos femininas e bem tratadas a pegar na tosta perfeita com o verde abacate por cima.

Queremos os ovos mexidos de volta. Ou simplesmente uma torrada com pontas queimadas barradas com manteiga ou doce. Não é preciso ser mais elaborado que isso. Ou então inventem outra moda. O abacate não é a solução para todos os nossos males alimentares. 

Não só alimentares como outros. E as notícias não são de agora. Consumir abacate pode estar a contribuir para o crime organizado no mundo. Ora veja esta notícia. Para além da monotonia visual com que nos deparamos na net. 

 

Não temos nada contra o abacate, atenção. Mas deve ser consumido com parcimónia, como no tempo em que os nossos avós e pais lhes chamavam de "pêra abacate", lembram-se? Há tantas outras opções, quer para o pequeno-almoço, quer de outros pratos interessantes para invadir o feed do Instagram. Basta serem um pouco criativos.

Aliás, podemos ajudar, se quiserem receitas para pequenos-almoços, brunchs e demais momentos instagramáveis, peçam-nos nos comentários deste post. Se insistirem, somos homens para vos ajudar. Combinado?

 

Relationship status: *ucked up

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Façam o teste: pesquisem no Google (em imagens) as palavras “Relationship status”. É um sem fim de resultados, a maioria deles com muita graça, quase sempre trocistas de uma realidade sobre a qual optamos pelo clássico “rir para não chorar”.

Outros - muito menos - mais profundos e quase a meio caminho do grau de guru do amor.

Mas vamos que interessa: estes são tempos estranhos para os solteiros. Parecemos viver num limiar de qualquer coisa que não chega a ser coisa nenhuma. Confuso? Pois, é esse o ponto.

Nunca, como agora, tivemos tantas possibilidades ao alcance da mão (literalmente) para conhecer pessoas. Apps e redes sociais em geral juntaram-se aos clássicos de uma vida de encontros fortuitos que os mais afoitos sempre aproveitaram para se dar a conhecer.

Mas nunca, como agora, estivemos tão desligados. A facilidade com que se percorre um “catálogo” digital de potenciais pretendentes parece ter arrefecido a forma como olhamos as relações. Procuramos a alma gémea, o “partner in crime”, a “pessoa que nos faça sair da aplicação” com o attention span de uma criança de 3 anos. Queremos tudo, mas não nos ligamos a nada. Dir-se-ia que nos tornámos exigentes - picuinhas é o termo -, mas o dedo que conduz os swipes parece fazê-lo cada vez mais distraidamente, adormecido por uma espécie de digestão sonolenta, provocada pelo evidente excesso de oferta.

E quando o match chega, tudo tem de ser perfeito. A opening line tem de ser arrebatadora (caso contrário nem nos damos ao trabalho de responder) e a resposta ao questionário-tipo que criámos para identificar o parceiro ideal – apurada ao longo de dezenas de matchs mal resolvidos e porque “não queremos perder tempo com quem não interessa” – tem de ser nada menos do que perfeita. E assim seguimos num carrossel de ilusões e atos falhados, que, no final do dia, nos fazem sentir pior do que quando começámos. Afinal, uma coisa é “falhar” no mundo analógico, em que apenas podíamos conhecer pessoas dentro do círculo de amigos, no trabalho (Deus nos livre!), na ocasional saída à noite ou, com sorte, no corredor dos frescos do supermercado. Outra coisa, completamente diferente, é falharmos com todas estas opções e, por cima, um mundo de soluções digitais criadas para desencalhar o mais teimoso dos Tollans*.

O resultado? Uma geração de fucked ups emocionais, que ameaça deixar de acreditar no amor, quando aquilo em que devemos deixar de acreditar é na possibilidade de terceiros virem resolver tudo o que está errado na nossa própria vida. Dificilmente alguém que não esteja bem consigo próprio será atraente para outrem. Mesmo que as realidades paralelas que criamos no instagram ou o perfil da dating app, sorridente e com uma citação de um escritor famoso, tentem mostrar o contrário.

A boa notícia não é que existe um divã digital onde possamos deitar-nos e resolver as nossas merdas, mas sim que temos a possibilidade de virar isto ao contrário. Esquecer as aplicações e as redes sociais e olhar para a/o menina/o que almoça todos os dias no mesmo restaurante que nós ou que frequenta o mesmo ginásio. Dizer “bom dia” é um começo. Rezar para que não nos considere creepy ou abusado é o passo seguinte. Afinal, com a “evolução” de tudo isto, simplesmente falar com alguém parece ter-se tornado um comportamento, no mínimo, desviante.

Boa sorte!

*Referência datada e que apenas os nascidos antes e durante a década de 70 vão entender.

Nota importante:

Nenhum perfil de Instagram, Tinder, Happn ou Bumble foi maltratado para a realização deste artigo. O mesmo resulta unicamente da capacidade de observação do autor. O “estudo” feito é totalmente empírico e carece de aprovação científica.

 

 

 

A moda mudou de mãos

Desfile de Marques'Almeida no Portugal Fashion, em outubro de 2019         José Fernandes

Há cada vez mais a ideia de se fazer, consumir e comunicar moda de forma mais sustentável. O planeta agradece, e as pessoas também. Reciclar peças, usá-las de forma mais consciente e vestir aquelas calças que estão no armário há anos e que nunca vestimos. Contra mim falo, que tenho roupa que usei uma vez e nunca mais lhe toquei. Faz sentido? 

Mas tenho uma coisa boa, dou imensa roupa e sapatos. Seja a amigos, seja a quem precisa dela. De tempos a tempos faço uma espécie de Black Friday meet Ciber Monday e envio fotografias de roupa e sapatos para amigos, deixando a decisão da escolha nas mãos deles. 

É como as roupas que passam de irmão para irmão. Porque a moda é uma das indústrias mais poluentes do mundo e, acredite-se ou não, a Terra não é plana, mas está cada vez mais poluída.

Somos bombardeados todos os dias com anúncios de roupa, montras com segundos e terceiros saldos, a preços de moedas pretas esquecidas nos bolsos, e acabamos por nos deixar ir na tentação. 

Sim, a roupa de designers made in Portugal é mais cara, mas a qualidade é melhor, dura mais tempo, tem design único, e sabemos que é feita de acordo com normais e leis que respeitam o Ser Humano. A de algumas montras sabemos que não é bem assim.

O homem moderno nos dias de hoje também tem muita roupa. É mais vaidoso, apresenta-se melhor, e gosta de se vestir. Mas a que custo? Ao de ter dezenas e dezenas de calças e camisolas e usar sempre as mesmas? Ter 30 pares de sapatos e ir trocando entre dois ou três? 

Façamos o exercício de abrir o roupeiro e, entre coisas penduradas e as outras nas gavetas, escolher aquilo que realmente faz sentido termos. Sem nostalgias ou tristezas. Com #desapego pelo que está a mais.

É suposto a moda ir mudando de mãos porque o que já não nos serve, assenta como uma luva em outra pessoa. 

De paixão em paixão

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Certamente vêm ao engano. Este texto não é sobre paixões e paixonetas amorosas. Pelo menos entre seres humanos. Este texto é sobre aquilo que nos move, que nos faz correr, que nos faz pesquisar. Com que nos apaixonamos. Por um certo tempo ou para a vida.

Comigo tem sido assim, várias paixões ao longo dos tempos. Nunca as abandono, vou sempre acrescentando. 
Tirando a estúpida comparação, sempre li que os homens do Renascimento eram aqueles que faziam várias coisas muito bem: música, literatura, invenções. Tudo ao mesmo tempo. Curiosamente, e sobretudo depois da revolução industrial os homens (e as mulheres, claro) ficaram cingidos a uma profissão. Às vezes passada de pais para filhos. Quem era professor seria, quase naturalmente, pai de professores. E a questão nem é essa, é que, no caso dos professores, advogados, jornalistas ou demais, passaram a ser isso e nada mais.

Hoje em dia até nos espanta quando sabemos que alguém que é (re)conhecido faz outras coisas. Um médico que também produz cerveja e tem uma marca dele, um engenheiro que aos fins-de-semana corre o país com a sua banda, etc. Mas este texto não é sobre hobbies, palavra estranha essa. Mas sim sobre paixões.

Pessoas - homens ou mulheres - que têm mais de que um interesse na vida. E não estou a falar de ver séries no sofá (sou grande adepto) mas de outros assuntos, que não seja os profissionais, que gostemos de pesquisar. Conto-vos na primeira pessoa, algumas das minhas paixões - sou assim desde puto. Desse tempo só recordo o discurso de uma namorada da altura da faculdade que ao ver-me desistir de uma coisa que me apaixonava disse, de dedo em riste: “nunca acabas nada que começas”. Nunca esqueci, sobretudo porque não concordar. O mundo tem tanto interesse, porquê cingir-me apenas a um?

Ora, também por essa altura apaixonei-me pela política. Inscrevi-me numa juventude partidária - não vou aqui dizer para não tomarem vocês partido. Li sobre a história da política, participei em campanhas, falei com políticos com experiência. Pensei para mim que, a par do meu futuro como criativo de publicidade (coisa para a qual tinha estudado e pesquisado muito) poderia investir na política a loooongo prazo. Como o futuro me trocou as voltas e levou-me para o jornalismo, desisti da política. Curiosamente nunca me apaixonei pelo jornalismo. Mas sim pelo poder de contar histórias e de escrever. Mas isso é outra história, já lá vão quase 20 anos.

Mais tarde apaixonei-me por um país. De tal forma que fui viver para lá. Dois anos bem vividos, sugados até ao tutano e que me mudaram. Aprendi a língua, o mínimo, claro, estudei a sua história e dava por mim a discutir com os nativos - em inglês - sobre problemas da sociedade. Ainda hoje ouvir o nome do país me faz sentir como se fosse meu.

Mais tarde foi a corrida. Sempre gostei de correr, lembro das primeiras tentativas por volta de 2001 ali para os lados do Estádio Universitário. Mas, anos mais tarde, por volta de 2012 apaixonei-me a sério. A certa altura decidi criar um blogue e passei a respirar (até demais) a corrida. Ainda hoje corro mas com menos paixão. As lesões e a falta de tempo refrearam o espírito. Mas houve uma altura em que poucos percebiam tanto como eu da teoria da corrida, especialmente do trail running, da forma como nasceu e dos nomes dos campeões norte-americanos.

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Quando lesionado tentava apaixonar-me por outras modalidades. Tentei o CrossFit, mas não obrigado. Tentei o Paddle, que é giro, mas só isso. É a corrida que continua a fazer-me suar. Literalmente.

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Depois vieram as motos. Apaixonei-me pela liberdade que tinha em cima de duas rodas. Vir para casa de moto depois de dias de stress era uma excelente terapia. Passava os dias e as noites a ver vídeos sobre lançamentos de novos modelos, sobre técnicas de condução. Até que levei com um carro em cima, parti uma perna e decidi deixar andar de moto. A paixão ainda cá está, sobretudo no verão. Mas decidi que não voltaria à estrada, pelos meus filhos, que sofreram ao ver-me no hospital com uma perna muito mal tratada. Isso e as dores que atingiram níveis que não sabia que existiam para um ser humano. Continuo apaixonado e às vezes sonho que estou a conduzir motos. Mas agora, só nos outros. Não tem mal. Tenho carta e em caso de emergência sei saltar para cima de uma e fazer-me à estrada.

Risotto

Mais recentemente apaixonei-me por uma coisa que sempre gostei mas nunca tive coragem de o fazer: cozinhar. Sabia fazer mal três pratos, mas que na vida de solteiro renderam muitos jantares com sobremesa feliz. Mas hoje é diferente. Depois de anos e anos a ver a 24 Kitchen, de ver os Master Chef e os Pesadelos da Cozinha e até mesmo de entrevistar profissionalmente alguns dos melhores chefs nacionais e internacionais, decidi começar a cozinhar.

E o prazer que me está a dar, nem vos conto. Cortar legumes e carne, sentir o calor do fogão, etc. Todo um ritual que acaba em servir quem gosto com um sentido de missão cumprida. E depois, é das melhores formas de stressar. Quando estou ali só penso naquilo. Já estou a ler sobre cozinha, a seguir os chefs de que gosto, a tentar fazer bem tudo o que faço. Com muita humildade e vontade de aprender. Onde me levará isto? Certamente a fazer mais uma coisa de que gosto e esta, sobretudo esta, é altruísta, os outros também ganham com este meu novo prazer.



E digo-vos já, venham outros. A vida é curta, só uma e é um desperdício sabermos fazer poucas coisas. Não acham?