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Like A Man

25
Set17

Fiz uma "maratona" de 10 quilómetros e sobrevivi para contar a história


João NC

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Ontem fui correr 10 quilómetros (até tenho dores só de dizer isto). Sim, fui fazer a Corrida do Tejo. Logo eu, que não sou o maior fã desta coisa de correr. Não era quando se chamava jogging e continuo a não ser agora que se chama running. Mas não me interpretem mal. Faço bastante desporto e defendo um estilo de vida activo e com a prática intensa de actividade física.

 

Mas correr não é muito a minha praia. Talvez por achar aborrecido, ou talvez até mesmo por nunca ter feito a coisa como deve ser. Enfim, não aprecio. Mas gosto de desafios. E quando a New Balance nos propôs que participássemos na corrida, numa lógica de experimentarmos e darmos feedback sobre o seu novo modelo Fresh Foam Vongo, nem sequer hesitei. Estando o Filipe a recuperar da cirurgia à perna, sobrou para mim, o que aceitei de bom grado. Para vos dizer a verdade, acho que nem pensei muito sobre o assunto. Na altura ainda faltava algum tempo para a prova, pelo que achei que com uns quantos treinos antes, a coisa fazia-se. Afinal, não era propriamente uma maratona, caramba! Venham de lá esses 10 quilómetros, pensei.

 

Se assim pensei, pior o fiz. Pois é, os dias foram passando, meteu-se o trabalho e a preguiça, e a verdade é que acabei por fazer apenas três treinos. Um de 5k e dois de 6k. Nem cheguei perto dos 10k, portanto.

 

Sim, senhor! É o que é – pensei. Vamos lá a essa prova. Domingo de manhã. 9 horas. Moro perto da zona de partida, pelo que achei que não valia a pena levantar-me mais cedo - a partida estava anunciada para as 10h. Pequeno-almoço e um café para dar força, e lá vou eu. Podia ter ido a pé, mas já tinha muitos quilómetros para pôr nas pernas, pelo que não valia a pena estar-me a cansar. Confirmo no smartphone que tenho uma scooter da eCooltra nas imediações e lá vou eu.

 

Primeiro erro: levo um pequeno saco com o shaker da proteína para tomar depois da prova e para guardar a camisola que levava vestida por cima da t-shirt da prova (sim, estava fresquinho e aqui o menino não gosta de se constipar). Mas calma, levava o saco porque tinha lido no panfleto da prova que havia uma carrinha para guardar os pertences dos participantes, que nos seriam devolvidos no final.

 

Bom, adiante. Chego à scooter, que se liga e abre (a zona de arrumações) através da App, retiro o capacete e coloco o dito saco seguido do... telemóvel. Fecho tudo e arranco. A meio caminho ocorre-me que havia cometido o segundo erro.

 

Segundo erro: ao ter colocado o telemóvel dentro do espaço por baixo do banco que, repito, se abre apenas através da aplicação, fiquei sem forma de... abrir o banco. Logo, uma vez chegado ao estacionamento, fiquei com um capacete na não, as coisas dentro da mota e uma prova quase a começar. Depois de tentar arrombar o fecho (típico de gajo), optei por uma solução mais diplomática. Procurei alguém com um smartphone e pedi para usar a aplicação. Não tinha, mas um amigo que chegou uns minutos depois safou a situação. Fica a dica: se vos acontecer algo do género, entrem com a vossa conta através de outro smartphone e já podem abrir a mota.

 

Entretanto, e com isto tudo, já eram 9h45. Encontro um amigo com quem me dirijo para a entrada. “Como é que se prende o dorsal à camisola?”, pergunto. Supostamente com os alfinetes-de-ama que vinham junto do mesmo. Bonito, o meu não tinha. Perante a alternativa de ir com o dorsal na mão, o meu amigo cede-me um alfinete dos dele. Serve. Siga!

 

Só falta colocar o saco na dita carrinha e seguir para a zona de partida. Só que não. Com tudo isto, a carrinha que saía às 9h45, já tinha partido. O erro número 1 ganha forma. Vou ter de correr com um saco maricas na mão. Seja. Há coisas piores (como estou prestes a descobrir).

 

Despeço-me do meu amigo, já que estamos em slots de saída diferentes e corro para a largada. Corro nos meus incrivelmente confortáveis New Balance Fresh Foam Vongo. Mas corro sobre calçada portuguesa. Que tem buracos e pedras soltas. Num desses, e pondo o pé esquerdo em cima de uma dessas, torço o pé de uma forma incrivelmente absurda. E dolorosa. Muito. Mas continuo a correr, agora ao pé coxinho. Chego à zona de partida e já está toda a gente no asfalto. Paro e sinto o tornozelo a latejar. E agora? Vou para casa de forma inglória, resignado perante tão patético destino? Gajo que é gajo faz-se à estrada. Depois logo se vê. E aqui, nestes breves segundos, vêem-me à memória aqueles vídeos motivacionais, de momentos decisivos na vida dos grandes atletas, muitos deles nos Jogos Olímpicos, em que escorregam, caem ou lesionam-se e, num esforço olímpico (lá está) dão tudo por tudo para terminar a prova. Quatro anos de treino (mínimo) não podiam terminar de forma inglória. Percebo isso e valorizo. Mesmo só tendo feito três treinos, havia um compromisso assumido. E, em abono da verdade, não tinha nada melhor para fazer àquela hora. Siga para a estrada! Os outros já partiram, eu sigo-os. Lá atrás ficam os outros grupos que irão sair dali a uns minutos. E corro.

 

Foi com alguma surpresa que vejo chegar a marca do Km 1. Não custou assim tanto, pensei. O tornozelo está bem e vou com bom ritmo. Os New Balance Fresh Foam Vongo estão a portar-se bem. Constato, sem qualquer surpresa, que há muitas mulheres a correr. E giras. Se calhar isto do running até pode ser algo a considerar.

 

Quem conhece o percurso, nem que seja de automóvel, sabe que a seguir à Cruz Quebrada, há outra “cruz”, a da subida absurda até ao alto da Boa Viagem. Boa viagem só se for veículo motorizado, já que a correr a coisa custa e muito. Aí confesso que me senti a morrer um bocadinho. E já que falo nisso, fica a dica: a parte boa do corpo humano é que, na maioria das vezes, demora algum tempo para falecer, o que me deu imenso jeito neste percurso. Quando chego lá acima já vou a pensar que se calhar esta história do tornozelo era um sinal. Não teria sido vergonha nenhuma desistir antes de começar. Tinha ali um óptimo pretexto. Mas não. Decidi começar e agora tinha de acabar. Claro que foi mais fácil tomar esta decisão na descida que se seguiu. Deu para isso e para recuperar um pouco o fôlego.

 

Uns quilómetros mais à frente - não sei quantos porque já não devia ter muito oxigénio a chegar-me ao cérebro - começo a ser ultrapassado pelos atletas (sim, eles merecem o epíteto) que partiram os tais minutos mais tarde. Tranquilo. Para já estou contente que o tornozelo não esteja a doer muito. Até começo a apanhar mais mulheres e tudo. Umas porque vão ficando para trás, outras porque me vão ultrapassando sem qualquer tipo de pudor. E aqui começo a perceber que esta coisa das corridas devia ter figurado no artigo escrito há uns meses sobre os melhores sítios para conhecer mulheres. Soubesse eu o que sei hoje, claro. Ainda assim, não é dos melhores momentos para se conquistar quem quer que seja. Na ausência de espelhos, vou confiar no meu instinto, que me diz que não devo estar no meu melhor. E não falo só do tornozelo.

 

Ponto positivo: tenho umas sapatilhas incríveis da New Balance, que não só me ajudam a galgar estes inevitáveis quilómetros, como são muito atraentes. Diria até que vi um ou outro olhar de soslaio que deixava adivinhar um pensamento do estilo: “dá Deus nozes a quem não tem dentes”.

 

Mas adiante. A parte boa deste desporto é que, tendo presença de espírito para isso, conseguimos estar ali bons bocados a reflectir. Sobre a vida em geral e algumas questões em particular. Por exemplo: constatei há muito clube de corridas espalhado por este país. A quantidades de malta que passou por mim - ou por quem eu passei (tipo dois ou três) - com camisolas alusivas aos seus clubes foi bastante significativa. Outros preferiam trazer camisolas de anteriores corridas, quais veteranos de uma guerra para a qual eu não fui chamado. E algumas senhoras não levavam grande coisa, o que reforça a minha teoria de que isto do running acaba por ter um lado perigoso. Um homem está sujeito a distrair-se e dar uma queda. Felizmente, por esta altura os meus Fresh Foam Vongo já puxavam por mim em direcção à meta.

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O pior momento foi mesmo passar pela placa dos 6 quilómetros. Terminava ali a minha zona de “conforto” (se é que posso usar esta palavra). A partir do quilómetro seis era território desconhecido. Não fazia a mais pequena ideia de como iria o meu corpo reagir. Não sabia, por exemplo, que ia ficar com os mamilos “assados” pela fricção da camisola. Sim, é um problema masculino e do qual, pelos vistos, ninguém fala. Tivessem-me avisado e teria tomado medidas. Uma pesquisa no Google seria o primeiro passo, naturalmente.
Mas fiquei – e estou – com os mamilos “assados”. Só para que saibam, parece que há um gel à venda nas casas da especialidade que ajuda a minimizar a coisa. Sei-o agora, tarde demais.

 

Sei também, de novo por experiência própria, que há uma enorme tendência para cuspir para o chão durante as provas. Não corri riscos de ser atingido, mas constatei com surpresa que também as senhoras (algumas) o fazem. Ok, bem sei que há uma produção excessiva de saliva na prática de desportos de alta intensidade, mas não deixa de ser incomodativa toda aquela sequência de arremessos de saliva para um lado e para o outro. Achamos sempre que pode tocar-nos (literalmente) a nós. E eu tinha umas sapatilhas que não queria sujar.

 

Com a meta à vista, há ali uma espécie de logro. Ouvimos os speakers, vemos o pórtico e achamos que estamos quase lá. Mas não é bem. Passamos pelo pórtico separados primeiro por uma vedação e depois por um lancil de passeio facilmente galgável. Meus amigos, isto não se faz. É quase criminosa aquela volta na rotunda, cruzando olhares com quem já vem em sentido contrário, muito perto de terminar. Fica à dica para a organização reveja esta opção, já que estão sujeitos a que pessoas, como eu, cujos princípios se vão perdendo à mesma proporção das forças, atalhem caminho virando antes ainda da rotunda, só para terminar com aquele sofrimento o mais depressa possível.

 

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Cruzando a meta, e fruto destas novas tecnologias, todo o atleta deve recompor-se e usar o seu melhor sorriso. Uma breve penteadela também é aconselhável, já que diz quem sabe que há câmaras as registar todas as chegadas para a posteridade. Fingir que não estamos quase a falecer também ajuda a ficar melhor na fotografia, dizem. Felizmente, no meu caso tinha os New Balance Fresh Foam Vongo nos pés que, não só - como o nome indica -, estavam fresquinhos que nem uma alface, como roubavam todo o protagonismo da cena da minha chegada. O meu ar de desgraçado agradece. Obrigado New Balance. Até à próxima.

 

PS – O meu tornozelo já teve melhores dias. Imediatamente depois da prova estava um pouco inchado. Horas depois parecia o tornozelo do Homem-Elefante. Hoje está ainda pior. Dumbo, se me estás a ler, tenho a tua pata. Vem buscá-la quando quiseres. Eu agradeço.

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