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Like A Man

01
Mar17

À conversa com Luís Pedro Nunes: “Trump põe em causa um certo discurso da recuperação da masculinidade”.


Filipe Gil

luispedronunes_likeaman

 

Falámos com Luís Pedro Nunes, repórter, jornalista, diretor do Inimigo Público, comentador em vários canais de televisão e um defensor da masculinidade. Nesta "Conversa de Homens" falou-se de como Donald Trump está a dar cabo da visão correta do homem, mas não só. Também se abordou a condição masculina e as mulheres da atualidade, falou-se de relações e ralações, de motores e até de apps que dão prazer a terceiros. Uma conversa da qual não devem perder pitada. Uma conversa de homem!

 

Em Portugal é hoje em dia mais fácil ser-se homem do que era nas gerações anteriores?
A tentação é dizer que sim, mas estamos a viver um momento crítico - digo isto porque tendo a refletir sobre estes assuntos. Estamos a viver um momento de expetativa e atualmente existe um corte no discurso da masculinidade com a chegada de Donald Trump ao poder. Trump põe em causa um certo discurso da recuperação da masculinidade. Quando não há nenhum homem decente, decente no sentido em que estava a recuperar alguns valores que estavam escondidos e envergonhados de uma certa masculinidade, uma masculinidade envergonhada e que estavam a ser recuperados como a patine do século XXI. Agora se vêem-se confrontados por um fulano que coloca em cheque e em choque os valores mais decentes dessa própria masculinidade.Trump assume aquilo que é mais vergonhoso, a tal conversa de balneário, o “grab them”, a defesa do macho-alfa com a mulher troféu, e retirou ao homem com “h” grande o seu espaço. 
Ficámos novamente sem discurso. E isto deu ao discurso feminista, que estava apaziguado, uma força muito grande, e nós homens temos de assumir que há aqui uma certa razão. Eu fiquei sem discurso de andar por aqui a dizer que temos de lutar pelos nossos valores masculinos, do discurso contra a emasculação masculina, contra a castração dos homens. Neste momento confunde-se tudo com aquilo que é o discurso “Trumpista”. E isto ninguém quer. Nestes meses recuámos novamente ao silêncio…

 

Mas como é que o homem chega a este ponto de quase ter vergonha de assumir o seu masculinismo, isto sem confundir com machismo?
É muito fácil misturar machismo com masculinismo até porque os próprios homens se recusam a refletir sobre isso. Não há vontade por parte dos homens, como grupo, de discutirem a sua própria condição masculina. Às vezes porque eles próprios estão numa posição de ainda alguma superioridade sobre as suas companheiras, e é confortável não refletir sobre isso. Bola, cervejas e silêncio na discussão. Não há interesse sobre a necessidade de refletir sobre tudo aquilo que tem vindo a mudar na análise e relações dos géneros. Os últimos anos têm sido pródigos sobre a teorização dos géneros e na aceitação entre as diferenças entre homem e mulher e como se acentuam nas sociedades mais ricas. E depois quando se fala em igualdade de direitos não se quer aceitar a má situação de diferença de características. Mas isso é mais difícil quando uma das partes não quer discutir o assunto, e essa parte são os homens. Os principais culpados. Ainda por cima, nós, em Portugal, partimos muito atrás nesta discussão, porque assim que se coloca as estatísticas de violência doméstica em cima da mesa não há qualquer forma de discutir este assunto.

 

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Passámos do “macho latino” a uns “acomodados”?
Não sei. Há a teorização como um todo, mas depois há as relações em casa e aí não se sabe. Não há um discurso de macho latino mas depois nas unidades domésticas ele existe, porque senão não haveria estes números absurdos de violência doméstica. O que acho irracional é a incapacidade dos homens discutirem e quererem saber onde se posicionam hoje e o que são os valores masculinos. Quer seja para transmitir aos filhos e ou à sociedade. Há valores masculinos? Há, não há?

 

Na tua conceção, Luís, o que é o masculinismo?
No momento em que vivemos não quero entrar nessa discussão porque é uma discussão minada. Atenção, não estou a ser cobarde até porque falo disto há muito tempo, mas corro o risco de ser logo transportado para uma conversa de balneário. Eu próprio tenho pouca disposição em falar disso numa altura em que Donald Trump está há semanas a atacar valores nobres da democracia. A atacar mulheres, a atacar minorias, etc.

 

Mas não valerá a pena, mesmo nesta altura, dizer que Trump não representa os homens?
Eu sei que não representa. Mas também sei que neste momento, e em termos mundiais, ser homem é defender os valores das mulheres.

 

E é mais fácil ser-se mulher em Portugal nos dias que correm?
As mulheres têm vários paradoxos ao longo das suas vidas. Os paradoxos da felicidade e infelicidade. Fala-se dos paradoxos da infelicidade de quando têm trinta anos estão realizadas profissionalmente, mas não têm filhos e são infelizes, isso e todas as angústias do seu relógio biológico. Há uma serie de contingências que as mulheres têm que os homens têm a displicência de não ter. A relação de poder paternal é diferente entre homens e mulheres. A maneira como as mulheres chegam ao topo da carreira é hoje muito diferente do que era há anos atrás. E nesse aspeto os homens têm a vida facilitada. O que não quer dizer que os homens devam desistir de definir os seus próprios valores e individualidade. Uma coisa são as desigualdades laborais outra coisa são as características da sua essência - e parece que isso tem provocado alguma confusão.


O fato de ser homem não me inibe de prescindir da minha masculinidade. Ao não prescindir da minha masculinidade continuo convencido que as mulheres são prejudicadas no trabalho, que são vitimas de abusos e de uma série de contingências a nível laboral que os homens não têm e que isso deve ser alterado de forma a que as mulheres possam ter as mesmas oportunidades do que os homens.

 

luispedronunes_bloglikeaman

 

Não serão também as mulheres a confundir machismo e masculinismo?
Sem querer generalizar, a mulher quer um homem seguro e forte! E os homens tendem a querer que as mulheres se continuem a arranjar, a não relaxar ao longo dos anos. E isto são coisas muito tradicionais do que seriam os casais há 20, 30 anos atrás. Ele com o papel de força e capacidade de defesa do seu “castelo” e ela com o seu papel de “princesa”. Contudo, isto são coisas muito mal vistas à luz da análise do século XXI. Mas depois se ele afrouxar, se não for capaz de defender, se hesitar, se for uma pessoa que não se impõe no momento mesmo que dê azo à discussão, a mulher perde o interesse. Se ela não tomar conta de si, se deixar de se arranjar, ele começa a pensar que já não há interesse, que é um dado adquirido, e o interesse perde-se.

 

São como as descobertas cientificas sobre as questões da bioevolução, em que se discutiu como elas trocavam de casal e eles espalhavam a semente. Nós somos evolução há muitos anos, mas estamos apenas há 30 ou 40 anos a tentar rearranjar a sociedade. Foram muitos milhares de anos a sermos assim, e esta tentativa de rearranjar os núcleos familiares numa coisa igualitária é algo muito recente. E depois quando esta "tinta fresca" sai, quando há um discurso de uma certa modernidade a tentar colocar-se no casal, naquilo que é mais profundo coloca em risco a própria relação. Ando aqui há uns anos e por vezes quando sou muito moderno na imposição da relação - e por vezes é porque estou apaixonado - e tento ser moderno para conquistar a outra, a coisa deixa de funcionar. Por sua vez, quando sou mais desprendido e mais impositivo, a relação funciona melhor...vá se lá entender!

 

E as redes sociais? Vieram baralhar ainda mais as relações? Casais que jantam a olhar para os smartphones e tablets sem falar um com o outro…
Houve um momento de grande paixão pelas redes sociais mas agora estamos a entrar numa fase de ressaca e de as questionar. Estive a ver e Portugal tem cerca de 6,5 milhões de contas ativas de Facebook…E se tirarmos tudo o que tem de mal, as redes sociais foram uma coisa extraordinária de colocarem pessoas a interagir do ponto mais ao sul ao ponto mais ao norte. A comunicarem e até irem para a cama. Desde o tipo que era muito tímido à tipa mais bloqueada a terem um encontro, ou do fulano pouco provável com a fulana muito provável, e vice-versa, os casos que nunca teriam acontecido, por isso valeu a pena. Há milhares de casos, de casamentos, de rolos e "enrolos" que aconteceram por causa das redes sociais que nunca teriam acontecido, sem redes sociais estariam todos no seu núcleo geográfico a fornicar uns com os outros. Houve como que um grande murro em cima de uma mesa que espalhou uma série de peças. Foi uma coisa fantástica. Eu ter conhecido a Tatiana de Kiev ou a Madalena de Vila Real de Santo António, por exemplo. Esta capacidade de comunicarmos uns com os outros…até ao absurdo de eu não conseguir falar pessoalmente com um diretor de jornal mas comunicar com ele de dois em dois minutos no Twitter...


A hipercomunicação entre as pessoas foi uma coisa extraordinária. Claro que houve um ponto de viragem disto tudo, há cerca de 1 a 2 anos, em que as pessoas foram engolidas pelos próprios aparelhos e começamos a questionarmos até que ponto não entrámos no Matrix. Não gostei do filme na altura, mas hoje quando o vejo até parece que já ultrapassamos aquele estado e já nem sequer lá estamos, ou quando vemos o episódio da série da Netflix Black Mirror em que as pessoas se pontuam pelos smartphone. Mas é a coisa mais normal do mundo…, aliás, vou falar num assunto porque tenho autorização para tal, e até já falei disso no Canal Q, mas há umas semanas, através de uma app do smartphone estive a controlar remotamente a intensidade de um vibrador que uma menina tinha colocado. E ela enquanto jantava com as amigas, sem elas saberem, conversava comigo e eu podia ver-khe a cara e as reações, disfarçadas pela presença das amigas. E aconteceu o que devia ter acontecido. E foi muito divertido. A empresa que inventou esta app (We Vibe) foi processada porque se descobriu que estava a recolher os dados das utilizadoras. Não se sabe bem porquê ou para que, mas estava a recolher os dados de quando utilizavam, quantas vezes. Ou seja o interno das utilizadoras estava a ser “hackado”. O que é uma coisa notável, estar “hackar” o interior das senhoras do planeta. E, claro, algumas mulheres processaram a empresa. Portanto, acho mais assustador a privacidade na questão da internet das coisas. 

 

Estamos a perder a privacidade?
Repara, no limite, estamos a usar telemóveis que nos indicam os passos que damos, qualquer dia medem a nossa pulsação, entre outras coisas. Nos Estados Unidos da América analisam as redes sociais antes de se entrar no país. Por exemplo, és suspeito de um crime? Com o GPS do telemóvel sabe-se por onde se andou pode ver-se o ritmo cardíaco a determinado momento, etc, isso e demais dados que podem ter existido num dia “suspeito”. Estamos de tal maneira a querer oferecer estas coisas que, por exemplo a câmara municipal da Amadora tem à entrada da cidade um cartaz  a indicar que o município protege os cidadãos com videovigilância, e na imagem está uma família de brancos. É um trunfo eleitoral dizer que vamos vigiar e ser vigiados.

 

E achas que vamos evoluir para coisas “chatas”, digo eu, das que vimos em filmes com o Minority Report ou a cada dois passos que a humanidade dá para a frente anda um para trás?
Não estou com muita confiança, tudo o que tem sido a inteligência artificial tem corrido mal, porque os utilizadores ensinam os bots a serem mal educados. Os nerds e os trolls dão inputs tão maus aos bots que os ensinam a serem racistas. A humanidade que existe a flutuar nas redes tem esse lado perverso e pretende esse lado torcido. Houve um grande chatbot que foi colocado a tentar a aprender a ser humano e acabou por ser racista porque lhe ensinaram isso de propósito. Sinceramente não sei, mas acredito que isto não vai correr bem. Não me parece que seja grande coisa que venha aí, até porque estamos todos muito felizes a querer isso.

O futuro vai ser insipido, com ecrãs por todo o lado, tudo limpo e branco, o que em parte contradiz aquele gosto do homem que gosta de motas, do “Do It Yourself”, de barulho...parece que isso vai ser proibido?
Há tempos andei num automóvel, um Ford Mustang, que no exterior não fazia barulho, mas para o condutor, e só para o condutor, tem electrónicamente o barulho do motor do Mustang original dos anos setenta. É um fake car. É um brinquedo falso. Reproduz electronicamente o barulho que fazia um Ford Mustang de 8 cilindros mas falsamente e apenas para quem está no interior do carro.


Um homem que é homem não se satisfaz com isso, pois não?
Aquilo é um embuste, é um faz de conta!


Mudando de assunto, de onde vem essa paixão por motos e carros?
Das motas gosto muito do fator perigo que é muito interessante. Andamos todos cheios de airbags e proteções e nas motas não. Basta um pequeno descuido e acabou. Cada vez que vamos a qualquer lado e damos gás, podemos ficar por ali. Acho que há qualquer coisa na vida que tem a ver como fator sorte e também com o ter algum prazer na capacidade de nos expormos deliberadamente ao perigo. Por exemplo, este verão atirei-me de paraquedas de 5 mil metros, depois de fazer um curso de manhã. E atirei-me sozinho. Aquilo correu um bocado mal, na queda o cérebro desligou e afastei-me do resto das pessoas, dos instrutores, com quem estava a saltar e às tantas quando dou por mim e estou a planar, o parquedas é automático, e só aí percebo onde estava. E estava de costas para a zona de aterragem e com o IP8 debaixo dos pés. Enfim. Mas lá consegui chegar. Acontece que já fiz muitas reportagens de guerra e aquilo dá muita adrenalina e depois quando voltamos procuramos esse disparar da adrenalina.

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Mas é uma questão de masculinidade?
Não, não é. Eu também não tenho filhos e tenho essa disponibilidade mental. Mas vou muito fazer reportagens a esses locais, como o Iraque, o Haiti, um dos destinos mais perigosos do mundo. E ali sente-se realmente o perigo. No Haiti tínhamos três guarda-costas que não nos queriam levar para o centro da cidade, mas insistimos. E às tantas percebemos que os tipos estavam a suar das mãos, as armas que empunhavam estavam com o suor deles, tal não era o desconforto e o medo, e o perigo daqueles homens. Também estive no Iraque, perto do Mossul, e 15 dias depois de lá ter estado o mesmo local foi atacado e toda a gente que conhecemos antes morreu. No entanto, quando lá estive tudo estava tudo tranquilo.

 

Mas procuras essa adrenalina para fazer essas reportagens?
Quando faço este tipo de reportagens não é pela adrenalina, mas confesso que gosto de ir a locais onde ninguém vai. Tenho uma série de reportagens planeadas mas que não é possível ir neste momento. Não se tem a real ideia de como a segurança mundial se alterou nos últimos dois anos, especialmente na África subsariana. Eu e o Alfredo Cunha – que agora vai inaugurar uma grande exposição de fotografias na Cordoaria de Lisboa – tínhamos duas reportagens planeadas, uma no Congo e outra no Burundi e que não vamos conseguir ir tão cedo. Agora estamos a tentar ir para as montanhas do Paquistão, mas vamos ver. Hoje em dia há uma impossibilidade muito grande de ir porque ninguém garante a segurança, antes conseguíamos ir com as ONG’s, mas agora são alvos. Portanto juntar ONG’s com jornalistas é juntar dois alvos. Mas o tipo de reportagens de coisas batidas e muito seguras não me entusiasma. Quando vamos a este tipo de reportagens não fazemos dinheiro é pelo prazer de fazer, pura carolice.

 

É este tipo de reportagens que te dá prazer ou é mais o humor e a sátira que fazes no Inimigo Público?
Não, por mim só faria este tipo de reportagens.


E como está o Inimigo Público, atualmente?
O Inimigo Público tem sido um milagre. São quinze anos a sobreviver. E agora vamos conseguir sobreviver à crise das fake news. Eu próprio tive de alterar o conceito e colocar um cartoon na capa, porque quando vi este ataque às fake news assustei-me um bocado. Temos patrocinadores que nos apoiam e estamos a mudar um pouco o conceito.

p.s.- Agradecimento especial à Uncover the Original You que nos acolheu no seu espaço na Embaixada para termos esta conversa de homens.

 

 

 

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